A Maldição da Serra Escura
Meu nome é Pedro, e o que vou contar aqui não é apenas uma história. É algo que vivi, algo que me marcou profundamente e que ainda me assombra toda vez que olho para o céu em noites de lua cheia.
Tudo começou quando fui enviado para um vilarejo isolado no interior de Minas Gerais, chamado Serra Escura. Eu era biólogo e estava lá para estudar a fauna local, uma floresta densa e praticamente intocada. A vida no vilarejo era tranquila, mas logo percebi que havia uma tensão no ar, algo que ninguém mencionava diretamente.
Os Primeiros Sinais
Na minha primeira semana lá, ouvi sobre os ataques. Fazendeiros relatavam encontrar suas criações despedaçadas, como se algum animal selvagem tivesse passado por ali. Mas não eram apenas ataques comuns. As marcas eram profundas, as feridas, brutais, e ninguém conseguia identificar o responsável.
Quando perguntei sobre isso, as respostas variavam. Alguns culpavam onças; outros, algo que eles chamavam de "a maldição". Não dei muita importância, achando que era apenas superstição. Até que conheci Ana, uma guia local que sabia tudo sobre a região. Ela me contou sobre a lenda do lobisomem, um ser que, segundo os mais velhos, assombrava a Serra Escura em noites de lua cheia.
O Início da Investigação
Eu não acreditava nessas coisas, mas os padrões dos ataques chamaram minha atenção. Decidi investigar por conta própria, e Ana concordou em me ajudar. Mapeamos os locais dos incidentes e percebemos que todos ocorriam perto de uma trilha antiga que levava a uma caverna esquecida.
Quando finalmente chegamos lá, encontramos algo que gelou meu sangue: marcas de garras nas paredes, ossadas de animais espalhadas pelo chão e um diário. O diário era de um padre que viveu ali no século XIX. Ele narrava a história de um homem chamado Joaquim, amaldiçoado por um pajé após ser acusado de bruxaria. O padre dizia que, depois disso, Joaquim desapareceu, e os ataques começaram.
O Primeiro Encontro
Naquela noite, enquanto voltávamos para o vilarejo, tudo ficou estranho. O som da floresta desapareceu, como se algo estivesse espreitando. Foi quando ouvimos os uivos. Meu coração quase parou.
De repente, uma sombra enorme cruzou nosso caminho. Quando levantei minha lanterna, vi dois olhos amarelos brilhando no escuro. Era ele. Era o lobisomem.
Corremos como nunca. Ana conseguiu pegar um atalho, mas eu tropecei. Antes que pudesse reagir, a criatura estava sobre mim. Achei que seria meu fim, mas então um disparo ecoou pela floresta. Era Antônio, um velho caçador local, que conseguiu espantar a fera.
A Verdade Assustadora
De volta ao vilarejo, Antônio me contou que acreditava na lenda. Ele disse que a maldição era real e passada de geração em geração na família de Joaquim. Isso explicava por que algumas famílias no vilarejo eram mais reclusas e por que ninguém falava sobre o assunto abertamente.
Foi aí que comecei a suspeitar de Tiago, um homem reservado que vivia sozinho e só saía de casa à noite. Algo nele não parecia certo.
A Caçada Final
Na próxima lua cheia, decidimos acabar com aquilo. Antônio, Ana e eu armamos uma emboscada perto da caverna. Usamos uma armadilha feita com prata, como diziam as lendas.
Quando a noite caiu e a lua atingiu seu ápice, os uivos começaram novamente. A criatura apareceu, enorme, feroz, mais terrível do que qualquer coisa que eu já tinha visto. A batalha foi intensa, mas conseguimos prendê-lo.
Quando o sol começou a nascer, algo inacreditável aconteceu. O lobisomem começou a se transformar. Diante dos nossos olhos, ele voltou a ser humano. Era Tiago.
Antes de morrer, ele confessou que nunca quis ferir ninguém. A maldição o obrigava a se transformar, e ele fazia o possível para se isolar. Implorou que queimássemos seu corpo para acabar com o ciclo.
Um Final que Nunca Acaba
Fizemos o que ele pediu, e os ataques cessaram. Mas, meses depois, encontrei um novo diário, escrito por alguém que viveu no vilarejo há décadas. A última frase dizia:
"A maldição nunca morre. Ela apenas muda de hospedeiro."
Desde então, não sou mais o mesmo. Há noites em que sinto algo diferente dentro de mim, algo que não consigo explicar. E quando vejo meu reflexo na água sob a luz da lua cheia, meus olhos parecem... diferentes.

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